Conferência UGT/FNE – Pensar o privilégio da educação e o seu papel

 

O Auditório Afonso de Barros, no ISCTE, em Lisboa recebeu a sétima Conferência do Ciclo de Conferências 2018, que a FNE organiza em conjunto com a UGT, CEFOSAP, ISCTE-IUL, CBS e a UFP, que se vai estender ainda a Braga e Viseu em janeiro de 2019.

A primeira intervenção da sessão de abertura ficou a cargo do Secretário-Geral (SG) da FNE, João Dias da Silva que chamou a atenção para a necessidade de se chegar a uma solução para combater as desigualdades e tornar desta forma a escola mais inclusiva, reforçando também a importância destes debates como contribuição para a criação de conteúdos que melhorem as políticas nacionais de educação.

Em seguida, Ricardo Paes Mamede, Presidente do IPPS-IUL ,tomou a palavra realçando o papel e a forma como o IPPS tem trabalhado e procurado colaborar nos estudos da educação e nas possibilidades de ação perante os novos desafios que a educação vai apresentando.

Carlos Silva, Secretário-Geral da UGT, fechou esta sessão de abertura e começou por referir que “é bom que a Academia ajude a pensar o privilégio da educação e o seu papel”. O dirigente da UGT acrescentou ainda o quanto é importante no atual contexto que a educação vive em Portugal, o papel da negociação, defendendo que “sem negociação, não há valorização dos trabalhadores”.

Tempo depois para a primeira conferencista convidada. Maria Álvares, do ISCTE-IUL, que começou por apresentar dados relativos à taxa de abandono escolar que diminuiu em Portugal nos últimos 10 anos, assim como os números da taxa de retenção.

Maria Álvares reiterou ser necessário perceber o que se passa nas escolas, sendo que no caso destes números foi dito que existe uma ligação entre a origem sócio-económica e essas mesmas retenções. Outro tema referido nesta intervenção foi a questão do abandono escolar. “Porque abandonaram estes jovens a escola?” foi a questão levantada sublinhando com a citação “é mais fácil abandonar do que voltar a estudar”, situação descrita no projeto Below 10. A procura de respostas leva a que se entenda que a culpa do insucesso escolar não seja apenas do aluno. É necessário perceber mais além que isso e entender factos como a situação sócio-económica da família, o sítio onde nasceu, as alterações de políticas dos governos, a diferença entre escolas. Foi ainda defendido por Maria Álvares a necessidade de apostar em aprendizagens mais práticas. Colocar os alunos a aprender mais pela experiência.

O painel de comentadores constituído por José Manuel Cordeiro (FNE/SDPGL), por Lina Lopes (UGT-Lisboa) e por Cristina Ferreira (FNE/STAAESRA) concordou que é cada vez mais fundamental pensar na criação de um caminho único na educação que não sofra alterações com mudanças de governos. José Manuel Cordeiro deu até o exemplo que “desenvolvemos um plano e quando estamos perto de termos respostas, a realidade muda”, sendo ainda referido por Lina Lopes que os professores é que fazem a diferença, pois com os currículos sempre a mudarem é difícil saber que caminho trilhar e são eles os grandes motivadores dos alunos. Cristina Ferreira reiterou estas ideias sublinhando que “não há nenhum projeto para a educação. É preciso com urgência criar um compromisso para pelo menos uma década para os trabalhadores da educação”.

A segunda conferencista convidada, Susana da Cruz Martins (ISCTE-IUL), fez uma breve análise ao desempenho do sistema educativo português assumindo que existiram pequenas conquistas que não devem ser desvalorizadas, como a redução do abandono escolar e o aumento da taxa de escolarização, dizendo que as desigualdades sociais acabam por marcar muito o sucesso escolar em Portugal. Susana Martins considera que a retenção é o primeiro passo para o abandono, sendo necessário repensar esta situação e que “o sucesso educativo é um processo de aprendizagem. Existem vários desafios que se colocam não só à educação, mas que são também socialmente alargados”. A fechar a sua intervenção, a conferencista referiu que existem escolas envolvidas em populações muito heterogéneas, apontando um exemplo de uma escola de Almada como uma instituição onde se conseguiu atingir sucesso escolar, mesmo nessa condição de heterogeneidade

António Tojo (UGT-Lisboa) foi o primeiro dos comentadores a intervir apontando que “por vezes o sucesso que apontamos é relativo pois quando as coisas não estão bem, qualquer momento positivo torna-se um sucesso”. O comentador referiu que “se o Presidente da República considera que temos os melhores Professores do Mundo, então, como já foi referido, a culpa não pode mesmo ser deles”, dizendo ainda que é necessário combater o abandono escolar, além de na questão económica aplicar salários mais justos que vão melhorar a produtividade, beneficiando toda a economia. Isabel Mendes (Especialista na área da Educação e Formação) no seu comentário, concordou com a necessidade de diminuir desigualdades mas apontou a realidade da formação profissional e a flexibilização da aprendizagem como passos para uma maior diversidade na educação e uma procura cada vez maior de mecanismos para oferecer formação que permitam a aquisição de competências, melhorando desta forma a relação entre trabalho e estruturas e as noções do ser para novas aprendizagens. João Paulo Martins Pereira Leonardo (FNE/SDPGL) alertou para uma situação: “existem muitas desigualdades no acesso às novas tecnologias e isso funciona como fator de exclusão, o que faz com que tenhamos de estar atentos”, acrescentando ainda que “precisamos perceber como fazer a inserção de alunos estrangeiros. É um desafio que temos de resolver e que começa logo no pré-escolar”, disse.

Coube a Maria José Rangel, Vice-Presidente da direção do SDPGL, a Manuel Camacho, Presidente da UGT-Lisboa e a Lucinda Manuela Dâmaso, Presidente da UGT realizarem o encerramento deste debate, tendo sido consensual o quanto este ciclo de conferências leva a refletir sobre as desigualdades e o quanto aumenta a responsabilidade de cada um após estas trocas de ideias. Foi ainda destacado que a escola tem desigualdades e é ela própria que as promove na maior parte das vezes, apesar de já se ter conseguido trilhar um caminho, mesmo com oportunidades perdidas, fruto do facto de cada vez se pedir mais aos trabalhadores das escolas numa altura onde o poder político falha em grande escala com os professores.

 

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